sexta-feira, 29 de agosto de 2014

João e Maria, Parte 2: Maria

Faltavam dois dias para o visto americano vencer. Teria que voltar ao Brasil, o sonho havia acabado. As passagens estavam compradas, não poderia fugir, teria que voltar. Tudo havia acontecido tão rápido que podia jurar que aquele ano tinha sido apenas um mês. Não queria voltar, tinha finalmente começado a se sentir em casa. Nova York é um ótima cidade para os solitários de coração. Todas as pessoas que atravessam a Union Avenue no meio da tarde parecem extremamente solitárias, todos os dias carregando seus copos de plástico e canudos coloridos de café misturado com todos os açúcares possíveis. Tapioca vinha na forma de goma preta em chás de coco de 500ml nos quiosques vietnamitas. A solidão estava por todos os lados. Por isso talvez as pessoas gostassem tanto de trabalhar em Nova York. “Tudo isso é pra não ficar sozinho”, Maria pensou certa vez ao observar a diretora do Instituto de Dança correr para todos os lados em seu escritório, afoita em mostrar uma foto da época em que era solista do Bolshoi. Susan passava mais de doze horas na academia. Maria sabia que ela tinha filhos e marido, mas não imaginava como um casamento poderia funcionar com uma das partes passando doze horas, seis dias por semana, fazendo outra coisa. Ela passou a se sentir em casa. Gostava de sentir a sensação de ser apenas mais uma porca no meio das engrenagens, uma formiguinha do formigueiro, mais uma trabalhadora da colmeia. Gostava dessa sensação de união da cidade, de coisas que só aconteciam lá. De um milhão de pessoas, ou mais, nem sabia quantas, mas sabia que era todo o tipo de coisa. Maria viu o tempo passar no metrô. Na linha G, que roda o Brooklyn, mas transferindo de outra linha de Manhattan a noite demora… Demora… Demora tanto que quando cansada só saia pelo Brooklyn. Ou dormiria no meio de alguma praça. Dormiu em algumas e se gaba por num ter tido nada roubado - o celular ainda era o mesmo -  mas sabe que foi apenas sorte. 

Era uma coisa maluca ter vivido tudo aquilo. Sentiu saudade de certas pessoas como se o tempo durasse uma vida para passar, mas não teve tempo de fazer várias coisas que queria ter feito. Nova York a acolheu de braços abertos e chutou sua bunda ao mesmo tempo. E era isso que ela queria, precisava testar outra coisa, agir em outra lógica, experimentar outros modelos. Maria sentia que tinha se transformado em outra pessoa, talvez esse tivesse sido o propósito da idéia toda. Mudar tudo de uma vez. Ela sabia que no momento em que entrasse naquele avião de ida, várias coisas parariam de fazer sentido. Mas aquele tudo de outra hora já havia passado, diziam que o tempo curava e ele curou. Fechou uma ou outra ferida e abriu outras tantas. E cutucou sem dó, mostrou tudinho estatelado no meio da cara dela. Foram tempos difíceis. O alojamento apertado com a companheira de quarto espaçosa disfarçavam um pouco a solidão onipresente. A multidão e os barulhos que nunca calavam adentraram Maria, a colocando na mesma freqüência da cidade. Aprendeu a viver daquela forma, se adaptou. Mas se sentia forte novamente. Tinha se convencido de que voltar para o Brasil seria uma mudança necessária, precisava resolver coisas por lá também. Não tinha mais dinheiro para ficar e nem queria tanto. Tinha dado, esgotou. Precisava do silêncio de Brasília mais do nunca. 

Chegou no prédio do antigo emprego sentindo um dejá-vu.”Tá tudo igual”, foi o que ela conseguiu pensar quando sentou no banco de sempre. Provavelmente veria uma equipe quase toda renovada quando chegasse em seu setor. Talvez conhecesse gente nova. Quem sabe teriam consertado a copiadora do andar de baixo, e a Odete tenha sido finalmente transferida para o RH. Esse tipo de coisa que se resolve em um ano. Na noite anterior havia encontrado os amigos, que fizeram uma pequena reunião para recebê-la de volta no novo apartamento de Glu. Ele já havia mudado há meses, mas como Maria ainda não conhecia o lugar - “Essa foi a grande mudança que aconteceu nas nossas vidas enquanto eu estive fora?” - resolveram marcar o reencontro lá. Ele estava morando agora com a amiga Marta, com quem Maria nunca se deu muito bem, mas conversou amigavelmente durante boa parte da noite anterior. Conheceu o novo namorado de Rita, bebeu catuaba depois do jejum de um ano. A noite havia sido boa. Estava com estômago um pouco ácido, mas fumava um cigarro mesmo assim. Era o costume, antes do trabalho. Também era costume que João aparecesse de surpresa e Maria reparou sua presença no momento em que levava o cigarro aos lábios, parando o movimento na metade. 

Lá estava ele, um ano mais velho. Bonito do mesmo jeito, com a barba um pouco mais cheia. Maria tinha esquecido que aquele ponto era perigoso, aquele banco. Chegou no trabalho esquecida de João, havia pensado nele na noite passada na casa de Glu, mas afastou a lembrança para não ficar neurótica. Se pensasse nele ficaria nervosa. Os dois pararam de se comunicar quando ele disse ter terminado o casamento, quase em acordo. Maria não o procurou, pensou que ele podia estar vivendo a vida de solteiro pegador e não quis atrapalhá-lo com suas histórias. Ele também deu seu tempo e há onze meses eles sequer tinham curtido um mísero post no facebook um do outro. Foi um longo silêncio quebrado com a aparição repentina, marca registrada de João. “Ele chega silencioso como um gato”, Maria pensou, ainda com o cigarro na metade do caminho, se detestando um pouco por não ter percebido a chegada dele. Estava ao seu lado, sentado no mesmo banco em que se conheceram, novamente em silêncio. Eles se olharam por um momento e ela tomou coragem para fumar o cigarro. Soltou a fumaça e João continuou calado olhando para ela. “Gostei da barba”, ela disse finalmente. Ele agradeceu e continuou a fitando. “Achei que nunca voltaria”, ele disse olhando para o chão. Maria não sabia o que dizer. Ela não conseguia ler no seu rosto nada que dissesse que ele estava feliz de encontrá-la de novo. “Você queria que eu voltasse?”, ela falou de supetão. Se arrependeu em seguida, mas João respondeu rápido. “Queria, mas logo agora?”. Maria não entendia. “Logo agora o quê?”. Ele suspirou. “Abriu uma vaga nas transferências e eu consegui a minha para o Rio”. 

Maria acordou ao amanhecer. Tinha ido conhecer a casa de João depois do trabalho e beberam vinho o suficiente para capotarem na cama depois de quase duas horas de sexo. Ela acendeu um cigarro na janela, sentada sem roupa em uma cadeira de balanço. “Demorou”, ela pensou. Observava João roncar levemente, enquanto recordava da noite anterior. Saíram do trabalho juntos e andaram até a quadra em que se viram pela última vez para fumar um baseado. Ele contou que se mudaria de cidade em uma semana. Só podia ser um karma. Depois que terminou o casamento ficou sozinho, conheceu umas garotas, paquerou e chegou a se encontrar com algumas delas mais de uma vez. Dizia que pensava em Maria quase sempre, mas que havia desistido. Era muito tempo até que eles pudessem se ver de novo e ele tinha que tentar aquela vaga no Rio. Maria não estava contando com o beijo que veio inesperado, no meio da frase e a calou. Podia ter durado um segundo ou uma vida, ela não saberia dizer. Se afogou nos lábios de João com tanta intensidade que não era capaz de lembrar da viagem de ônibus até a casa dele. Não conseguiu olhar pela janela do tanto que eles se beijavam. 

Se acalmaram ao chegar no quintal e passaram a noite a observar estrelas em um colchão improvisado que João montou na grama. As duas garrafas de vinho acabaram por volta da meia-noite e a partir desse horário, as peças de roupa foram sumindo magicamente até não sobrar mais nem as meias. Entraram para o quarto e Maria se lembra de gozar duas vezes. A sensação da alma despregando do corpo aconteceu tão naturalmente que seus corpos pareciam se conhecer de outras vidas. Ela suspirou lembrando da cara de felicidade de João quando ela ficou completamente nua, os dois se divertiram como crianças em um parque de diversão. Compartilhavam uma curiosidade com o corpo do outro que se tocavam apenas por tocar, pelo prazer de sentir a pele alheia. Precisavam estar dentro um do outro o mais rápido possível. 

Rita não acreditava que eles tinham se encontrado de novo tão rápido. “Ele trabalha no mesmo lugar que eu”, é claro que ela não se lembrava. Lembrava apenas da parte em que João era casado, mesmo que Maria insistisse que ele já havia se separado há quase um ano. E agora esse outro problema de ele ir embora. “Não poderia dar certo, essas coisas acontecem para prevenir a gente de coisas piores”, que chatice. Rita podia ser desagradavelmente pessimista certas vezes. Maria suspeitava que ela estava tendo problemas com o novo namorado, qual era o nome dele mesmo? Pedro? Rafael? Pedro. Se lembrou de Rita e o… Marcos? Paulo? se atacando passivamente na casa de Glu. Rita estava monotemática sobre sua apresentação de teatro que Pedro (ou Rafael?) não pôde comparecer. O azedume na voz dela era tão óbvio pelo telefone que Maria suspeitava que nem precisaria ter que aprender o nome do rapaz, ele não duraria muito tempo. Mas Maria e João ainda teriam uma semana… Rita insistia pra que ela não se apaixonasse. “Não é algo controlável”, Maria sabia que já estava feito. Tinha se apaixonado há um ano atrás, quando encontrou João sentado ao seu lado pela primeira vez, quase instantaneamente. E agora a história se repetiu. 

Felizmente aquela semana pareceu ter durado uma eternidade. João iria embora no domingo e desde aquela segunda-feira os dois dormiram juntos todas as noites. A mãe de Maria estava preocupada, a filha mal havia chegado de uma viagem de um ano e elas tinham se encontrado uma vez, no aeroporto quando ela chegou. Maria tinha prometido dormir na casa da mãe, mas depois explicou. Havia conhecido uma pessoa e só teriam essa semana, “ai ai, Maria. E depois?”. “Depois eu te conto, deixa essa semana passar”. E passou. Todo dia uma aventura nova e uma rotina que Maria adorava. Se encontravam na entrada e na saída do trabalho e passeavam pela cidade até que fossem parar na cama de João. E lá eles gastavam horas. Conversavam semi-nus enquanto fumavam um baseado, enquanto ouviam Led Zeppelin na vitrola (Maria sempre colocava a agulha do meio pro final de Stairway to heaven: “O começo é chato”), conversavam enquanto tomavam banho na banheira até a água ficar fria. Falavam tanto de amor que não sabiam se estavam falando deles próprios ou da vida em geral. Talvez estivessem falando dos dois. 

No aeroporto, o clima despedida fez Maria chorar no banheiro ao lado da sala de embarque. Não queria que ele fosse, não era justo. Não queria fraquejar na frente dele, também, não tinham conversado como seria dali para frente. Os dois fizeram o possível para evitar o assunto até aquele momento, com a desculpa que perderiam o tempo presente juntos se ficassem focados no futuro. Mas o presente tinha acabado e tudo o que tinha agora era o arrepio na nuca que já sentia saudades. O beijo da despedida foi como o primeiro, impossível determinar quanto tempo durou, mas ainda assim foi pouco. “Podia ter durado mais”, Maria pensou voltando para casa. Dormiria em sua cama pela primeira vez desde que tinha voltado e aquilo lhe pareceu muito solitário. 



Nenhum comentário:

Postar um comentário