terça-feira, 26 de agosto de 2014

João e Maria, Parte 1: Maria

A parada de ônibus chegou antes que Maria percebesse. Sentada na janela, fitando o asfalto do outro lado da rua levou um susto quando o ônibus deu partida. Teve de contar com a ajuda de outros passageiros que pediram ao motorista que a esperasse descer. Agradecendo as pessoas apertadas no corredor do Grande Circular, pareceu retornar de seu estado contemplativo quando pisou no chão da parada de ônibus. Ela havia passado o caminho de casa até o trabalho mergulhada em um transe pessoal, sem notar quem subia e descia do ônibus ou mesmo quem sentava ao seu lado. Por um momento se sentiu desconfortável ao lado de uma senhora espaçosa e cheia de sacolas que desceu duas paradas depois, parecendo ter pego o ônibus errado. A senhora falava muito alto ao telefone com o filho e eles pareciam se desentender sobre qual parada de ônibus deveriam se encontrar. Maria simplesmente ouviu o zumbido da argumentação da senhora ao telefone, sem desviar o olhar atormentado da rua que passava na janela. “Não foi falta amor”, dizia sua consciência para o ex-namorado invisível enquanto a senhora ralhava ao lado: “Eu sei que eu falei que era na 102, mas não é!!”. A voz da senhora foi ficando mais baixa enquanto ela e outros passageiros se levantaram para descer do ônibus. Maria continuava: “Mas não era amor bom. Não pode ser. Não é amor ter obrigação de agradar ninguém. Nem a você, seu estúpido.” Foi tempo o suficiente para acordar do sonho do asfalto e voltar a realidade. Tinha de descer do ônibus, tinha de trabalhar, tinha de parar de fitar o asfalto se justificando para aquele rapaz de não tinha simplesmente nada a oferecer a ela. Tinha decidido, iria embora. Tinha chegado o momento de partir, teve que usar da geografia para finalmente dar fim aquela história. Brasília era muito pequena, ele estaria por todos os lados. Ela uniu fome a vontade de comer e aproveitou a oportunidade. Foi aceita no Instituto de Dança e daria aulas por um ano em Nova York. Mas precisava fechar as contas no antigo emprego. “Só mais essa semana”, Maria pensou mordendo o lábio e se aproximando da entrada do edifício em que trabalhava em um órgão do governo.

Sua cabeça turbilhava aos pensamentos, tão inquieta que ela temia que as outras pessoas que caminhavam ao seu redor pudessem ouvir o que pensava. Precisava fumar um cigarro antes de entrar no edifício. Era o que fazia diariamente, ao lado de outros colegas fumantes do trabalho. Sentou no seu banco de sempre e tirou atrapalhada da bolsa uma carteira de cigarros amassada e um isqueiro. Equilibrava “O guia do mochileiros das galáxias” entre as pernas, livro que nem abrira durante o trajeto do ônibus. Pensava em contas a pagar, amigos a despedir, o ex a esquecer, família a traquilizar. Trabalharia até a última sexta-feira para pegar o vôo da meia-noite. Era apenas segunda. O dia não chegava. A viagem já estava marcada, não era como se ela tivesse como fugir. Maria quase não percebeu quando um rapaz sentou-se ao seu lado. Ele também fumava e ela fez esforço para se lembrar de onde o conhecia. Antes que pudesse se recordar, seus olhos se cruzaram e ela sentiu um leve arrepio na nuca. 


Chegou ao setor onde trabalhava estarrecida e pegou um copo d’água antes de abrir a porta. “Ele é novo aqui”, ela pensava enquanto cumprimentava os colegas de trabalho e se sentava na mesa de seu computador. Abriu a página de e-mail corporativo e deslizou rapidamente a caixa de mensagens recebidas sem ler o conteúdo dos assuntos até o final. Abriu o facebook. João Lira. Trinta e oito amigos em comum. Clicou no álbum de fotos “Cachaça e carta” e suspirou passando as imagens de um sítio isolado no topo de uma serra. Parou em uma foto de João entre dois amigos jogando baralho em uma mesa com garrafas e copos de doses. Percebeu os olhos bonitos de João com o mesmo arrepio na nuca. “Tocam profundo os olhos de qualquer outra pessoa”, ela pensou extasiada. Quase não podia acreditar. Tinha gostado dele. A conversa foi rápida, mas com assuntos certeiros. A afinidade era gritante, berrou aos olhos dos outros companheiros de cigarro, com quem Maria não alongou conversa dessa vez. Fechou o álbum e foi analisar o resto do perfil de João. Casado com Joana P. Maria engoliu a seco. Era hora de trabalhar e não podia perder tempo com cara bonito casado do trabalho. Ela iria embora de qualquer jeito, naquela mesma sexta-feira. Estava tão magoada com o término do último namoro que era incapaz de interagir socialmente com um rapaz desconhecido sem acabar em uma discussão. Maria estava tensa, dura, rígida. E também atormentada com a quantidade de mudanças que deveria lidar no próximo ano. Mas se sentiu bem em dois minutos de conversa com João. Era ridículo pensar em seus nomes juntos.

Na terça-feira Maria chegou ao trabalho cinco minutos mais cedo. Ela olhava inquieta para entrada do edifício, ansiosa para que João aparecesse logo. Por algum motivo tinha urgência em vê-lo, mas ainda não sabia o que lhe diria. Não o mencionou para os colegas na noite anterior. Guardou João como um segredo quando Rita, a amiga de longa data, perguntou se ela já havia conhecido alguém. “Ninguém interessante”, respondeu, pensando nos olhos castanho claros de João. Não queria dizer nada para não dar azar. João sentou-se ao seu lado quando ela acendia o segundo cigarro, tentando equilibrar um livro, o maço amassado e as pernas cruzadas. Maria tentava forçosamente ler “O guia do mochileiro das galáxias vol. 2” pela terceira vez, só para matar o tempo antes do horário de entrar no trabalho. E esperar João aparecer. Mas João não era possível. Não daria. Maria tinha certeza de que aquele arrepio na nuca significava perigo. Tinha se sentido da mesma forma quando conheceu o ex-namorado, mas a linda história de amor prometida pelo primeiro encontro - um show lotado em que os amigos em comum finalmente os apresentaram - se transformou em um passado tão palpável que era difícil de acreditar. “Será que já esqueci?”, ela matutava. Pensou que essa sensação podia ter sido causada pela aparição inesperada desse novo trabalhador de um emprego que ela estava prestes a deixar. Iria embora. Sentiu de novo a nuca arrepiada e foi pega de surpresa quando percebeu João sentado ao seu lado. João não disse nada, só acendeu um cigarro quando ela finalmente percebeu que ele estava lá. O amigos fumantes por algum motivo sentavam todos em outro banco e aquele espaço ao seu lado ficou oportunamente vago. Maria deu um “oi” atrapalhado querendo dizer algo mais, mas não sabia. Os dois fumaram em silêncio. De alguma forma aquilo não parecia desconfortável e a mente de Maria cessou de procurar algo a dizer. “Ansiosa”, ele finalmente disse, e Maria não teve certeza se era uma pergunta. “Não só por isso”, ela acabou confessando. Se arrependeu no segundo seguinte. João deu um sorriso e fez que ia chegar mais perto, mas nem chegou tanto assim. “Calma…”, ele falou arrastando a palavra. Maria sabia que não coraria, mas se sentiu corada. “É muita mudança de uma vez. Uma grande fuga de um ano. Vou pra Nova York, mas volto”. Era como se ele a compreendesse por completo, talvez fosse algo no olhar. “E é a segunda vez que converso com ele”, ela pensou enquanto o observava tragar o cigarro. Era lindo. Ela não podia crer.

Maria esmagou uma semente no meio da calçada, quando ela e João caminhavam até a parada de ônibus na noite daquela terça-feira. Ela gostou de ouvir o barulho das cascas quebrando, sempre gostou de pisar em cascas crocantes, com as folhas duras e os pequenos grãos espalhados. Não sabia exatamente que tipo de árvore era, mas as via em todo lugar em Brasília. O barulho da folha dura quebrando era um prazer. Depois de passar o êxtase do som de cascas pisadas, João perguntou porque ela havia matado a semente. “Era pra ouvir. Eu nunca pensei que estaria matando a semente”. Ela riu desconcertada, mas instintivamente mirou outra casca de semente enquanto caminhava. “O som é bom mesmo”, disse João, mas não pisou em várias cascas que atravessavam seu caminho.

Na quarta-feira a noite Maria contou para Rita sobre João. Era inevitável. Já tinha contado a irmã, teria que contar para Rita. Foram dois fins de expediente seguidos, depois daquele primeiro encontro. Dois dias seguidos na mesma semana, aquela última semana. Não foi nada, é claro que não foi nada. Os dois só caminharam até a parada de ônibus, se encontravam durante os cigarros nos intervalos. Falaram de muita coisa, é claro, mas ela iria embora. Eram dois dias. Ele era casado. “Não daria, não agora.”, foi o que Rita disse ao telefone, enquanto Maria separava roupas em cima da cama, com a mala aberta ao lado. “É bom pra você realmente esquecer o ex, afrouxar a cabeça. Relaxar paquerando, pra você já entrar no espírito em Nova York”. Maria não se decidia entre dois shorts jeans que levaria como quarto short jeans. Fez um “unidunitê” e o sorvete colorido foi o short jeans escuro de cintura alta. Afastou a pilha de shorts jeans e sentou na cama. “E não é como se a gente estivesse fazendo algo. Foi só caminhada até o ponto de ônibus e cigarro. Um monte de cigarro”. Maria colocou no vivavoz e a voz de Rita soou alto pelo quarto. “Mas e os beijinhos da despedida?”. “Não houve”, Maria refletiu. Não se tocaram. Nunca se cumprimentaram, nem aperto de mão, abracinho, beijinho, nada. “Fala a verdade”, Rita não acreditaria. “A gente nunca se tocou”, Maria também não acreditava.

Quinta-feira chegou quente, ensolarada, mas com o vento frio do inverno de Brasília. No sol faz calor, na sombra é gelado. Maria havia resolvido pendências de viagem, organizado os documentos, decidido entre shorts jeans. Se sentia produtiva, viva. Estava em clima de nostalgia no trabalho, com os futuros ex-colegas. Festinhas, adeuses, era uma forma alegre de celebrar mudanças. Se sentia segura e ao mesmo tempo amedrontada em pensar no futuro, mas era gostoso. Havia eliminado boa parte da tensão dos ombros, apesar de estar fumando mais. Era ocasional, era por causa dele. Era uma desculpa, mas ao menos uma desculpa adequada, coerente. As conversas com João tinham ficado cada vez mais pessoais, mais intensas. Maria já havia contado sobre vários de seus ex-relacionamentos e dramas anteriores. Eles dividiam angústias e questionamentos. Os dois se perguntavam o que de fato minava o amor e a cumplicidade entre duas pessoas. Por que os padrões de homem-mulher, namorado-namorada, marido-esposa, estavam sempre acabando em divórcio-separação e por que ao mesmo tempo nos obrigamos a nos manter infelizes em relações desgastadas e sufocantes. Ela tinha se livrado de uma relação obsessiva depois de muito insistir e ele se mantinha em uma, querendo acreditar que alguma outra solução seria possível. Ela prontamente insistiu para que ele não desistisse. Que acreditasse um pouco, que tentasse de todas as formas. João não entendeu. Pareceu confuso, como quem ouve pela primeira vez o mesmo objeto ser chamado por um nome diferente. 


Aquela maldita e bendita sexta-feira. O vôo sairia a meia-noite, ela trabalharia até as oito, teria que voltar pra casa no máximo as nove e meia. Uma hora e meia para gastar conversa com João. A última, em um ano. Depois do trabalho sentaram em um banco de uma quadra, fumaram um cigarro acendendo o seguinte. Foi a forma de celebrar a última noite. Antes eles apenas seguiriam para parada de ônibus e torceriam para que ônibus demorasse. Mas aquela noite resolveram sentar no caminho, dar um tempo, ficar um pouco mais. Tudo isso foi acordado de forma casual, como se aquela fosse mais uma sexta-feira entre outras tantas, mas sabiam que era um adeus. Falaram da vida para não terem de se encarar, de pessoas que conheciam em comum, de passeios anteriores. Maria pode reparar a nuca comprida de João e sentiu um arrepio na sua. Queria olhar mais de perto para poder contar as pintas que subiam o pescoço dele. Se despediram sem se tocar, mas com um olhar tão fulminante que poderia sugerir todas coisas do mundo. Era um convite para aventura, mas nenhum dos dois sabia exatamente que tipo de aventura seria essa. Podia ser o início de uma paixão, ou uma grande amizade. Alguma conexão, que poderia ser restabelecida em algum momento, talvez até fisicamente. Aquela falta de contato físico fazia Maria duvidar da existência de João. Poderia até ser um fantasma. Antes de cair no sono dentro do avião imaginou como seria o toque de sua pele, a textura de sua língua e como eles se dariam bem pelados.

A distância criou uma necessidade de conversa diferenciada: agora que se falavam por outros meios, de certa forma tinham mais liberdade de fantasiar. Ficou claro que a conexão era compartilhada quando Maria enviou a primeira mensagem com resposta quase instantânea de João. Não era tão casual assim, mas também não era como se algo pudesse acontecer. A conversas foram se alongando e a tensão sexual do encontro físico foi substituída por inferências provocantes via texto. A paquera havia sido declarada. Maria sonhava constantemente com aquele João fantasia que caminhava ao seu lado e dividia o cigarro esperando o ônibus chegar. Mas agora ele havia se tornado o João que pensa nela quando gasta muito tempo no chuveiro, o João que já lhe disse que conhecia sua cara de tesão mesmo sem nunca a ter visto. Maria sentia sua nuca em chamas toda noite em que suas conversas se alongavam. Atrasava encontros com amigos de Nova York para gastar sacanagem com João no computador e não se arrependia. Foram “noites de travessiro”, ela chamava, porque esfregava o travesseiro com tanta força entre as pernas que algumas vezes conseguiu sentir João dentro dela. As vezes Maria fechava os olhos no meio da tarde ao receber uma mensagem erótica. Fechava os olhos para poder sentir. É claro que Nova York logo a consumiu, as aulas de dança eram puxadas e as viagens de metrô nem sempre pontuais. Outras pessoas começaram a aparecer e João ainda era casado. Se dizia infeliz, precisava de uma mudança. Queria outras coisas no momento e a aparição de Maria o fazia ter entendido essa necessidade, ele dizia. Era uma questão delicada. Maria sabia que não gostaria que seu marido (se assim o fosse) tivesse o tipo de conversa com outra pessoa, no nível que ela e João estavam tendo. Era despretensioso, mas apenas se você não tivesse um compromisso com outra pessoa. Ela entendia a angustia de João, mas estava tão longe… também não queria ser motivo de separação, ela sabia como doía. Havia passado por isso tão recentemente que as vezes pensava que se faziam anos. Esse encontro com João pareceu dilatar o tempo. 


João a enviou uma mensagem exatamente um mês depois de sua chegada em Nova York, dizendo que havia entrado em “processo de separação” com a esposa e que estaria ausente por uns dias. Maria tinha conhecido Jack no dia anterior e passado a noite em seu estúdio em Manhattan, por isso decidiu voltar ao Brooklyn somente na manhã seguinte, pegando o trem das 7:30a.m. Seu celular havia descarregado, e ela só viu a mensagem de João quando chegou em casa depois da aula de ballet.

Nenhum comentário:

Postar um comentário