terça-feira, 26 de agosto de 2014

João e Maria, Parte 1: João

A sensação de aperto do ônibus parecia refletir o estado de espírito de João naquela segunda-feira. Ele segurava com mais força o apoio de mão, balançando a cada freada, pensando que finalmente começaria naquele emprego e sairia da condição de ser sustentado pela mulher. Joana já estava angustiada com a sucessão de dias que João passava no sofá e no video-game. Estava infeliz, desempregado, desacreditado. Ele entendia o peso que estava se tornando na vida de sua companheira, mas por muito tempo foi difícil dar esse passo importante que é o de começar, de fato, a fazer as coisas. O emprego veio em boa hora, João acreditava que caso demorasse um pouco mais ele talvez teria sido engolido pelo sofá ou se transformado em um atirador de Counter Strike. Estava começando a sonhar com as estratégias para combater terroristas, comprando armas que variavam de calibre com o poder de sua ira. O rapaz estava perturbado. Pensar nos últimos eventos de seu casamento o fazia se sentir culpado. A senhora gritando ao telefone no ônibus com o filho o fazia se sentir culpado. O pobre do rapaz só havia perdido a parada de ônibus, João pensou, teria que fazer um retorno, não era grande coisa. Mas a ira da senhora o fez sentir-se responsável. Como se de alguma forma João fosse cúmplice da ignorância do filho da senhora.

As noites em seu quarto eram acompanhadas, mas sempre solitárias. O pornô era absolutamente proibido em sua casa, e mesmo assim, Joana não parecia muito interessada em sexo recentemente. Não com ele. Todas as últimas iniciativas de João de inovar ou prolongar o ato foram repreendidas não-verbalmente. Ele entendia, não estava colaborando para felicidade de ninguém, mas gostaria de ter essa opção. De simplesmente não ter a obrigação de produzir ou ser responsável pela felicidade de ninguém. Ele nem ao menos era capaz de fazer isso a ele próprio. Não estava nessa condição e não sentia que conseguiria devolver a seriedade que a relação exigia. Pensou no pai, no avô, em todos os outros homens desistentes da família. Todos aqueles que disseram adeus sem nunca mais voltar ou simplesmente dar uma explicação pela partida. Não queria ser isso, não podia. Prometeu fazer diferente se comprometeu com Joana e agora, quase três anos depois se via em dúvida. Era como se estivesse no piloto automático. Tinha controle parcial do que fazia, mas estava dependente. Talvez agora com esse emprego novo… Cumpriria horário, se vestiria adequadamente, daria um tempo para que Joana também aproveitasse a sós a casa e sua própria vida. As coisas mudariam.
         
Não tinha começado bem, tinha pego o ônibus errado, viajou. Não sabia se chegaria ao centro tão rápido. Podia se atrasar uns cinco minutos, talvez não fizesse mal. João reparou uma garota sentada a frente. Ela parecia hipnotizada ao olhar pela janela. Tinha um cabelo liso comprido e a pele morena. Parecia uma figura curiosa. Havia algo diferente, peculiar nela. Algo de novo, uma onda. Ela deve fumar maconha, ele pensou alto. Desceu do ônibus ainda intrigado com a garota da frente, que não se abalou quando o ônibus parou, nem fez menção de descer. Ela estava em outro lugar. 

João parou para comprar água de um camelô e enquanto aguardava o troco, observou a garota estranha passar. Ela estava indo pelo mesmo caminho que o seu. Enrolou para continuar andando, tentando pensar o que fazer. Ela não o reparara, mas ele se sentia diferente em sua presença. Quando passou fez João ter o impulso de dizer olá, mas ele cedo percebeu que pareceria estranho e se recatou no seu quase movimento. Eles não se conheciam. Quando chegou ao edifício do novo emprego avistou a garota sentada em um banco grande. Ela segurava um livro de cabeceira que João há tempos havia emprestado para Tito, o amigo que nunca o devolvera. Ela acendia um cigarro, e ele achou que eram muitas coincidências para não tomar uma atitude a respeito. Haviam pego o mesmo ônibus e aparentemente trabalhavam no mesmo lugar. Ela fumava e lia o livro de cabeceira dele. João sentou ao seu lado e ela se assustou. O sorriso era grande, largo. João se perguntava porque ela parecia tão esquisita, tão de outro mundo, tão parecida com ele. Seu rosto era quase familiar. A conversa não pôde se alongar o quanto ele gostaria e ela logo fez menção de entrar no edifício. Já trabalhava lá há um ano, estaria saindo de licença, voltaria no ano seguinte. Muitas informações de uma vez. Ela era nervosa, falava rápido, engolindo as idéias, mas João sentia que o seu ritmo de fala acalmava a garota. Com o passar da conversa a fala dela foi se alongando, as pausas também. Como um blues que desacelera. Maria. Maria. Maria. Maria. Maria… ele pensou tantas vezes que o nome parou de fazer sentido. 


Chegou em casa se sentindo culpado. Aquele sentimento havia virado seu melhor amigo de tanto o acompanhar. A culpa acordava com ele, tomavam café juntos, daquela semana em diante também iria trabalhar ao seu lado. Acompanhar João na volta para casa, no banco ao lado do ônibus. Parecia que nada que fizesse estaria desrelacionado do peso nos ombros e da consciência que gritava a cada incoerência. Não sabia o que fazer, não era como se pudesse confessar a alguém sobre algo, porque não havia algo. Mas sabia que aquilo queria dizer uma porção de outras inferências. “Por que essa amizade repetina?” alguns poderiam perguntar. Sua mulher poderia perguntar isso ou mil outras coisas semelhantes e mesmo que ele respondesse a todas, ainda teria que contar com a boa vontade de Joana em acreditar em sua confissão. E mesmo que acreditasse, o que faria depois? O que poderia existir para um relacionamento depois da frase: “conheci outra pessoa”?. E mesmo assim, não houve traição, nada foi feito. Pela primeira vez na vida poderia jurar de pés juntos que jamais encostou um dedo naquela garota. O que não mudava suas intenções, pois tudo em que ele pensava recentemente era em tocar Maria. E mesmo que ele decidisse acabar o relacionamento com Joana, o que faria? Maria estaria dentro do avião antes que tivesse coragem de iniciar a conversa do término.

João tentou desenhar um esboço de suas emoções na noite de quarta-feira. Tinha fumado mais do que o normal. O trabalho estava monótono, como é comum de quase todo início, então ele tinha tempo suficiente para um cigarro ocasional, apenas para rondar. Conseguiu conciliar sua vontade com a de Maria, e os dois entravam no mesmo ritmo de horário fumante. A cada uma hora e meia, ou duas horas passadas, era o momento da pausa. Se ele fosse ao banheiro, poderia levar um cigarro no bolso da camisa, caso ela estivesse lá fora. E se estivesse, maravilha. Eles não falavam por muito tempo, mas era tempo o suficiente para gostar de estar ao lado dela. A garota se enfurecia e indagava tudo com tanta dúvida e coerência em suas perguntas - ele pensava a observando enquanto caminhavam em uma noite de lua fina - em direção aquela bendita parada de ônibus, que naquela mesma semana havia virado um ponto de encontro, um caminho acompanhado e presente. João se hipnotizava pelas histórias que ela contava, e como reagia as suas. Ela muito recentemente tinha sentido coisas parecidas com que ele sentia agora. Ela fugia de alguém, do ex, da imagem do ex, da projeção do ex, da história com ex. O cara parecia um estúpido, mas era ela que reforçava sua própria estupidez por não ter coragem de ter terminado antes. Dizia que seu coração se partiu por amar demais. Tinha se esquecido de si mesma, se entregado por completo a um ideal romântico que nada tinha a ver com sua realidade ao redor. E de fato, ela parecia extasiada com a compreensão de si mesma. João tentou se lembrar de si mesmo, mas tudo que viu foi um amigo antigo, alguém com quem não encontrava há anos. João e Joana era outra coisa, era o que sobrou. Mas João, sozinho, não era encontrado há muito tempo.

Teve de lhe contar tudo na quinta-feira. Joana, a casa, os gatos. Os amigos, os projetos, os desejos frustrados, as dores que nunca curaram, as outras mulheres de sua vida, a vida em geral e como ela fazia ele se sentir. Sentia que podia falar, podia querer. Maria mantivera sua distância, que pareceu esquisita no primeiro momento, mas depois ele compreendeu que era a forma que ela encontrou para não se apegar. João respeitava, também não encostava nela. As despedidas tinham sido todas desastradas, na noite anterior Maria quase perdera o ônibus porque os dois se olhavam em silêncio sem saber como dizer tchau. Talvez se eles se tocassem algo explodiria, alguém morreria ou o eixo da terra mudaria de direção. Um buraco até a China se abriria no chão do setor comercial de Brasília. Era uma mistura de feromônios insuportável, mas foi assim e todos os encontros até aquela quinta-feira haviam sido. Apenas o cheiro e a presença quase metafísica.

João queria lavar a louça antes que Joana chegasse, ou pelo menos estar lavando louça quando ela voltasse da reunião do clube de pais e mestres de Téo, na escola. Com o ex-marido, se ele aparecer. A culpa rondava. Poderia pensar em Maria em silêncio enquanto lavava a louça, ou tentar parar de pensar nela. Sentia que precisava fazer algo, dizer algo, precisava que ela soubesse que aqueles encontros eram importantes. E precisava fazer algo também a respeito de seu casamento. Não estava feliz, sabia. Acreditou que a paixão por Joana nunca diminuísse, planejava passar o resto da vida ao seu lado. Quem sabe teriam um filho para fazer companhia a Téo. Já moravam juntos há muito tempo e há muito tempo pareciam mais acostumados com a relação do que apaixonados por ela. E conhecer outra pessoa é algo que pode acontecer a qualquer um, não é planejado. Certamente não planejou conhecer Maria e suas pernas, mas elas apareceram de qualquer forma e ele logo percebeu o que faltava com Joana. Faltava aquele dialeto que ele e Maria podiam falar tão fluentemente, uma língua universal que faz tudo o que o outro diga os mais bonitos versos recitados. Ele e Maria estavam compartilhando e conversando a língua do amor.

Tinha decidido que daria um beijo nela nesta sexta. Não teria nada a perder. Tinha que fazer algo, tocá-la, senti-la, cheirá-la, tinha de tomar coragem. Pensou no que ela poderia dizer e quantas maneiras diferentes poderia rejeitar seu beijo. Talvez não sentisse a mesma coisa. Talvez ela só esteja em busca de alguém para fazer companhia até a parada de ônibus, pelo gosto de papear. “Ela sabe que sou casado. Sabe que não estou feliz, mas sabe que sou casado.”, ele pensou alto enquanto mastigava feijão com arroz. Teria de beijá-la no começo da noite, depois do expediente e torcer pra que ela não tenha outros planos, ou pegue alguma carona com alguém. Eles poderiam andar por alguma quadra, ele levaria um baseado que tinha prometido. Seria a hora certa, olhando as estrelas do céu sem nuvem daquele inverno seco e frio de Brasília. Sentiu uma vibração no baixo ventre e se recompôs com um arrepio, esticando a coluna. Continuou comendo depois de imaginar os lábios secos da boca bem delineada de Maria. Ela poderia achar a tentativa de beijá-la um ultraje, e ele acabaria com tudo com apenas um único movimento em falso. Mas não deveria fazer diferença, porque mesmo que ela rejeitasse completamente a tentativa ilusória de roubar um beijo, não teriam que se ver na segunda-feira. Ela já estaria longe. Era a última chance em um ano e mesmo assim, não saberia se a encontraria novamente depois que o tempo passasse. Nunca se sabe. Joana perguntou porque ele estava tão avoado durante o almoço e João acordou de seu transe desistindo da idéia de beijar Maria.

Sentados em uma banco de frente a uma pequena praça, João e Maria observavam os carros que estacionavam mais adiante. Eram oito da noite daquela sexta-feira, e as pessoas pareciam estar voltando do trabalho. A quadra estava agitada e eles ainda podiam enxergar o vermelho dos faróis de carro, que passavam quase voando nas pista de 60 quilômetros do eixinho. O vento batia frio e espalhava os finos fios de cabelo de Maria pelo ar. Ela sibilava tentando chamar um gatinho branco e marrom que apareceu entre os arbustos. O gatinho levantou as orelhas e até se aproximou ao ouvir chamado de Maria, mas logo reparou em um casal com um cachorro que vinha andando pela calçada, e voltou a se esconder nas sombras das folhas. “Acho cachorro senso comum”, Maria disse, se esquivando para procurar o gatinho entre as sombras dos arbustos. Ele entendia. Concordava ao observar o grande bulldog arrastar o próprio dono, que segurava com força a coleira ao lado da namorada com roupas de academia. Sentia-se como aquele bulldog. Um grande senso comum, agindo sempre da forma que se esperava dele. Procurou por um momento alguém em sua vida para relacionar com os donos do cachorro, os que mantiveram ele na coleira esse tempo todo. Só soube dizer o nome de Joana. O outro fator que fazia dele um cachorro grosseiro poderia ser o próprio senso de si mesmo. Seu ego, seu ideal pessoal, todas as projeções. Tinha perdido a espontaneidade ao longo do caminho, observava isso nas atitudes tranquilas de Maria. Ela podia guardar todos os segredos, mas estava bem. Era quase um olhar de esperança nas coisas e na vida que ela direcionada até para o pequeno gatinho que não apareceu de volta. Ele não conseguiu beijá-la.

João acordou antes do despertador, com o barulho de Joana fazendo a mudança. No dia anterior ela havia lhe comunicado a decisão de voltar a morar com o ex-marido. Era o pai de Téo, fazia sentido. Ela chorou agradecendo os anos de relacionamento e se dizendo grata a todos os cuidados que ele havia tido com ela e com o filho. Ele a abraçou ainda sonolento e fechou a porta. Fazia um mês que Maria havia ido embora. Mas ela se tornou mais presente com esse passar de mês. As conversas não pararam, se quer diminuíram. João gastou mais do que devia em serviços de internet móvel com velocidade o suficiente para poder se comunicar com Maria em qualquer lugar. Agora poderia contar para ela que estava livre, que não tinha mais um relacionamento. Não é como se isso mudasse alguma coisa, ainda faltavam onze meses para ela voltar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário